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domingo, outubro 17, 2021
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    O pitoresco no Cantinho de Ouro

    A poesia da paisagem do “Cantinho de Ouro”, um bairro qualquer, da cidade de Lagoa da Prata se encontra em sua amargura. Meus inimigos imaginários e amigos podem imaginar que levo a bandeira da amargura, mas como sinalou o escritor mineiro Bartolomeu Campos Queirós: “coisas que a gente só imaginou a memória guarda. E fatos que a gente nem sabia que sabia rompem sem mais nem menos no pensamento”. Agora, parafraseando o grande escritor – (…) E chegar ao mundo com 65 anos, com um filho de 11 anos etiquetado como autista é carregar, sem sombra de dúvida, um grande peso na memória.

    Jornalista Magno Fernandes Reis (Chiapas – México)

    No cenário “Cantinho de Ouro” se desenvolveram vivências intensas e encontros fantásticos – parecia que o tempo nos deixou fora da rotina, dos transmites de documentos e das obrigações. No cantinho de Ouro descobrimos cedo que a vida verdadeira não é esta crua imitação.

    Nossas ventanas não tinham grades e, sim, vários destinos esperando-nos. Mas, que peso do Cantinho de Ouro eu arrasto em minha memória? Atravessando o “beco da paciência”, inclinado e estreito, onde mora (ou morava “moela”), um artista na preparação de traíra ao forno sem espinhos.

    À esquerda quando caminhávamos com destino ao centro havia uma casa, um pé de manga e um quarto escuro – onde morava uma menina; e sua ventana tinha barrotes. Pelas frestas entre as barras de ferro penetrava o sol mastigando, sussurrando, aniquilando os pensamentos da menina e anunciando a festa dos fantasmas.

    Os desenhos e os rabiscos na parede se transfiguravam em monstros e sombras. O medo me levava refugiar na loja de Carlos Tavares e, depois pedir muxiba, meu cachorro (Samura) no açougue de Luís – e, as ruas do Cantinho de Ouro nos devolviam as coisas que nos fixaram o rumo de nossas vidas e seguridade para transitar pelo mundo.

    Para as doses de “Lobatinha” (a melhor cachaça do mundo) perdemos gente brilhante como Lolo – (filho de José Felício). A questão não é cachaça e, sim, todo “ser humano” é um caçador da morte, porque nem todos meus amigos e inimigos imaginários de minha infância e adolescência em Lagoa da Prata teve as mesmas vantagens.

    É difícil recordar os nomes de todas as personagens porque a gente não dava importância ao nome e ao sobre nome das pessoas e, sim, aos apelidos, um amigo Calango, foi uma grande vítima da justiça – ou seja, para sustentar o vício começou a roubar eletrodomésticos – infelizmente, que a justiça para estes personagens funciona como uma cortina de fumaça para justificar as transgressões cometidas para defender os interesses de ‘’gente fina’’, ou seja as que têm pedigree.’’

    O câncer nos arrancou Antônio Carlos Tavares que tinha frases inteligentes como: “Aqui no Cantinho de Ouro só tem artistas para fazer um filme necessitamos importar bandidos”. Apesar de que olhamos pouco ou nada para o Cantinho de Ouro, temos a certeza que este bairro nos ensinou a arte de viver.

    A imagem que os lagopratenses tem feito sua no último século, amando-o ou odiando-o, tem muito de pobreza, derrota e brilho – Se a lagoa brilha como prata, aprendemos que nosso cantinho de outro brilha como ouro. Conversar no “Bar Cantinho de Ouro” era um prazer – Com a mão na cintura, nossas mães desenham nossos destinos. O diálogo iniciado com os principais personagens que viviam no Cantinho de Ouro continua até nossa própria morte. Os amigos e inimigos imaginários estruturam nossa vida, nos deu uma direção, portanto nunca morreram.

    Eles não nos deixam de ser por ter falecido. Por exemplo, o grande Raposo (José Antônio) se foi, mas posso afirmar que não levou nada com ele. Até hoje, eu consulto meu José Reis, Rui Amorim, meu pai Eliseu Fernandes dos Reis em momentos de dúvidas – e, sempre pergunto que ele teria feito em uma determinada situação.

    Sempre que estamos a ponto de cair, fazemos todos eles presentes. Os personagens do Cantinho de Ouro vivem em nossos sonhos e em nossos espíritos, nas fotografias – São parte de uma história. Viver significa dialogar com uma velha casa, expor e enfrentar o outro.

    Aprendemos com “nossos” personagens modelar-se a través de este diálogo que sustentamos com o passado – através das posturas que tomamos ante todos os problemas e através de cada eleição.

    Assim é Walter Sylva: viver é também, à partir do momento que começamos a ter perdas significativas – a grande lição aprendeu não foi na escola e, sim no Cantinho de Ouro, o seja, aprendemos a dialogar com os mortos.

    Termino – mas, às vezes o espirito bairro “Cantinho de Ouro” chega aqui, em San Cristobal de las Casas (Chiapas – México) como o vento, ES pelado, é o brilho de prata e ouro, é o fragmento de uma vida, e atravessa minha vida como nada passa na vida, nada, exceto o passado, que é um fragmento da vida.

    Verdadeiros. O nariz do monstro era o cabo do guarda-chuva, o rabo do demônio o cinto de meu avô, o gigante, a capa “Ideal” cinza para os dias de chuva e frio. “Então procurava distrair meu pavor decifrando os escritos na parede, no canto da cama, tão perto de mim.” (QUEIRÓS, 1995, p. 17-18). O fragmento acima expressa que os espaços tão cotidianos…

    Debruçado na janela meu avô espreitava a rua da paciência, inclinada e estreita. Nascia lá em cima, entre casas miúdas e se espichava preguiçoso morro abaixo. Morria depois da curva, num largo com sapataria, armazém, armarinho, farmácia, igreja, tudo perto da escola Maria Tangará, no alto de São Francisco.

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