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segunda-feira, outubro 11, 2021
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    No tempo das borboletas

    Por: Maria do Rosário

    Às vezes, caminhando pelas ruas da minha cidade, faço uma volta no tempo e vejo como mudou a nossa paisagem. Lembro-me ainda menina, caminhando pelas mesmas ruas, antes cobertas só por terra e cascalhos, todas ladeadas ainda por pedacinhos de matas ou de jardins.

    No centro, corria um córrego manso, esse mesmo que corre asfixiado sob o asfalto e que ainda rasteja na orla do bairro Cidade Jardim.  Na minha infância, era gostoso ver a água limpa do córrego carregando os peixinhos coloridos e dando guarida aos sapos que a gente sempre ouvia coaxando ao anoitecer.

    Mas o que eu mais gostava de ver era o colorido das borboletas, no voo suave e colorido entre as flores dos campos.  Eram asas de todas as cores e tamanhos. Passavam leves e faceiras pelos nossos jardins e muitas vezes se aventuravam a entrar por uma janela e sair por outra, diante de nosso olhar maravilhado pela sua beleza.

    As borboletas faziam parte do colorido dos nossos dias. Assim como os vagalumes que iluminavam as nossas noites.  A molecada toda se punha a correr pelas ruas mal iluminadas, pois naquele tempo, não havia energia elétrica na cidade.

    Brincávamos à luz da lua e dos lampiões colocados nos alpendres das casas… E como ficávamos felizes quando vinham os bandos de luzinhas faiscantes, voando entre as ramagens do mato dos lotes vazios e as árvores que cresciam livres na frente das casas. 

    Era um herói aquele que conseguia apanhar mais daqueles bichinhos luminosos, um troféu para os mais espertos e velozes. Eram bons tempos aqueles.

    Mas as borboletas sumiram e os vagalumes também. Assim como os colibris e outros enfeites vivos que Deus colocou no mundo e que o homem, na sua sanha louca pelo progresso, vai pisoteando pelo caminho.  

    Aos poucos os campos vão sendo pavimentados, o espaço de liberdade, onde voavam visitando as flores, vai sendo ocupado por construções modernas, que no lugar de flores ostentam verdes folhagens, essas novas tendências do paisagismo.

    O que era vegetação natural do nosso chão pantanoso vai sendo expulso para as lembranças, e o progresso avança ligeiro, chacinando as veredas, secando as lagoas, estreitando os rios. As flores que aqui brotavam faceiras ficaram estéreis, não nos oferecem mais sua beleza nem seus frutos do mato, como os muricis e as guabirobas que a gente sempre achava nos trilhos que havia para atravessar as quadras da cidade.

    E os vagalumes foram em busca do cheiro do mato e da frescura da noite, que ficam cada vez mais distante de nossos passos. O brilho fluorescente da luz que agora disputa espaço com o neon afastou essas pequeninas lanternas da natureza para longe de nós.

    Assim como tantos outros fulaninhos do mato se foram quando destruímos seus ninhos, desmanchamos suas tocas, e demarcamos nosso espaço erguendo muros e fronteiras cheias de pedras e asfalto.

    E como se não bastasse a nossa extensão urbana, nossa área rural foi tragada e engolida pelos verdes canaviais, que cuidou de mudar nossa história, nossa flora e nossa fauna, mudando o nosso clima e a nossa paisagem para sempre. Foram-se embora os vagalumes das nossas noites. E as borboletas já não mais nos acenam diante das nossas janelas.

    Conexão Mineira
    Maria do Rosário

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