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domingo, outubro 17, 2021
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    Chico Sensato e a Macumba da Naná

    O Chico Sensato nasceu lá pelas bandas de Garças de Minas. Seu pai era evangélico, pregador itinerante, que passava tempos em tempos em cada localidade, pregando e instalando igrejas.

    Quando moço, com os seus vinte e poucos anos, resolveu ficar numa localidade pequena, na Serra da Canastra. O distrito era pequeno, mas havia ali muitas famílias residindo, muitas casas.

    Apesar de pequeno, possuía mercado, açougue, distrito policial, ambulatório médico, es cola, uma pequena cidade dentro de outra cidade.

    A família do Chico Sensato é procedente da comunidade que se instalara ao lado da Ponte do Rio Itapecerica, nas famílias que ali se formaram.

    Dizem que o Chico era muito bonito: era alto, forte, usava sempre barba feita, cerrada, cabelo grande, bem cortado, sempre amarrado debaixo de um chapéu com as abas voltadas para cima.

    Fazia suspiros nas redondezas quando ele passava. O Esteves, fazendeiro das bandas fronteiriças aos Bodoques, tinha filhas e criadas nascidas na casa do seu pai.

    Tinha ali grande número de moças nas várias casas da fazenda. A filha do Esteves, a mais velha, ficou encantada com o Chico e pediu a uma das criadas para levar ao Chico uma mensagem.

    O Chico leu a mensagem, guardou no bolso e não deu resposta. Essa criada voltou até à filha do Esteves e nada disse. Nova mensagem foi enviada ao Chico e dessa vez ele nem recebeu.

    De longe, abanando o chapéu, mandou a moça embora. A filha do Esteves resolveu então apelar ao mundo dos deuses. Chamou uma das mulheres antigas da fazenda para fazer um trabalho.

    Mas era necessário, para o plano dar certo, uma peça de roupa do Chico. Agora estava lançado o problema. Se não conseguissem uma peça de roupa, deveriam ter um ‘tufo’ do cabelo do moço.

    Foi chamada então uma das moças da casa de baixo, para tentar angariar a peça fundamental para o ‘trabalho’: Naná. A Naná era uma moça bem-criada, educada… falava pouco e baixo.

    Era sim, muito bonita. Em qualquer roupa, chamava a atenção de todos, com cabelo grande, enorme, muito bem cuidado. Era a mais bela das cercanias.

    Foi lançada então para alcançar o Chico e tentar a empreitada. Logo no primeiro dia, a moça chego u então com o chapéu do Chico.

    Perguntada sobre como conseguiu o chapéu que o Chico não largava por nada, disse ela que foi ao bar onde o homem sempre passava.

    Fez lá uma aposta com o Chico acerca de uma pimenta dedo de moça que o Cido Mantiba tinha. O Mané do bar buscou a pimenta e lançaram uma aposta: uma colher de pimenta, sem cuspir e uma pinga.

    Quem conseguisse comer mais pimenta ganhava a aposta e podia pedir qualquer coisa ao perdedor. O Delegado foi chamado para garantir ao vencedor o prêmio.

    A Naná então desafiou o Chico, dizendo que iria começar a disputa. Uma colher pra Naná, uma dose de pinga… nem careta fez, nem com a pimenta e nem com a pinga.

    O Chico comeu a porção de pimenta, mandou a pinga no peito… abriu a camisa e tirou o chapéu. A Naná foi pra segunda etapa… Já fez careta e tomou a pinga de supetão.

    O Chico foi pra segunda etapa e abraçou o balcão… tomou duas, três pingas, e se sentou em uma cadeira, abrindo a camisa e colocando a polveira sobre a mesa, segurando pra não cuspir tudo…

    A Naná foi pra terceira etapa… Pegou o chapéu do Chico e começou a abanar-se, com muito calor… Seu rosto ficou vermelho e ela tomou duas pingas…

    Olhando fixamente para o Chico, que já estava desalmado, sorriu. O Chico foi pra pimenta, tomando uma colher, passou pelo caldo e levou a colher na boca, cuspindo tudo sobre o balcão, vomitando pimenta, correndo para os fundos do bar, colocando a cabeça sob água corrente de bica, tentando melhorar do evento.

    A Naná, para espanto de todos, passou a colher no caldo e tomou mais uma dose cheia de pimenta, tomando mais uma dose generosa de pinga. O Mané ficou abismado. A Naná queria pagar a conta mas o Mané não deixou…

    Chamaram o delegado. Aposta feita, aposta feita. O Chico veio para sofrer o prêmio da palavra empenhada. A Naná já estava com o chapéu nas mãos; apenas sorriu e virou-se, tomando o rumo de casa.

    Depois de alguns dias, esperando uma sexta-feira, foram então para a encruzilhada, estendendo uma colcha, colocando nela várias garrafas de pinga, a farofa, a galinha preta bem-feita, frutas frescas e o chapéu ao centro.

    Realizado o trabalho foram todas para casa. Passados cerca de dois meses, visto nenhuma notícia vinda da Usina, a moça do Esteves foi procurar o Chico Sensato. Disseram apenas que o Chico havia montado sobre o seu cavalo, brincando com os passantes, dizendo que havia recuperado o seu chapéu, apesar de não ser o verdadeiro dono.

    Ao voltarem para casa, notaram que não havia ninguém na casa de baixo… Naná, sua mãe e suas irmãs, haviam desaparecido com suas roupas, coisas, e uma carroça, guiada pelo Zebedeu, seu pai…

    A mulher que havia feito o trabalho, procurada pela filha do Esteves, disse apenas que algo havia dado errado… O caseiro André estava de cama, com febre e havia riscado o nome da moça no braço com um canivete.

    Muito provavelmente, trocaram o chapéu…

    Isaias

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